10/09/2025
27º CBCENF: Maria Geneci Macedo Silveira recebe o Prêmio Anna Nery

A auxiliar e técnica de Enfermagem Maria Geneci Macedo Silveira recebeu, nesta terça-feira, 09 de setembro, o Prêmio Anna Nery, durante o 27º Congresso Brasileiro dos Conselhos de Enfermagem (CBCENF), em Salvador. A honraria é uma das mais importantes do Sistema Cofen/Conselhos Regionais e reconhece trajetórias de relevância para o fortalecimento da Enfermagem brasileira.

Geneci foi a primeira profissional de Enfermagem negra a ingressar no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, em 1975. A instituição é, hoje, uma das com maior força no enfrentamento ao racismo.

“Reconhecer Maria Geneci é reconhecer a força ancestral que sustenta a Enfermagem brasileira. Sua trajetória, pautada pela resistência e pelo amor ao cuidado, é exemplo para toda a categoria. Ela abriu portas e construiu caminhos para que outras mulheres negras pudessem existir e resistir dentro do sistema de saúde", salientou o coordenador da Câmara Técnica de Enfrentamento ao Racismo na Enfermagem, o técnico de Enfermagem e conselheiro do Coren-RS Elenilson Félix.

Muito emocionada, Maria Geneci agradeceu a distinção. “Meu coração estava pulando para fora do corpo. Este prêmio não é só meu, ele representa a Enfermagem negra e gaúcha. É o reconhecimento de uma luta coletiva, construída com amor e resistência", enfatizou.


A trajetória de Maria Geneci Macedo Silveira

Reconhecer Maria Geneci Macedo Silveira com o Prêmio Anna Nery é reconhecer a força ancestral que sustenta a Enfermagem brasileira. É honrar uma trajetória de quase cinco décadas pautada pela resistência, pela presença, pelo cuidado, pelo amor e por uma militância que nunca se desconectou da prática profissional. É fazer justiça a quem não apenas abriu portas: construiu caminhos para que outras mulheres negras da Enfermagem pudessem existir e resistir dentro do sistema de saúde.

Maria Geneci nasceu em Porto Alegre, no dia 14 de fevereiro de 1955. Filha de um servidor da prefeitura e de uma zeladora de prédio, cresceu na capital gaúcha — onde vive até hoje. Foi na humildade do lar, no senso comunitário da infância e no afeto cultivado dentro de casa que desenvolveu a escuta atenta e a ética do cuidado que viriam a marcar toda sua trajetória.

Seu ingresso no Grupo Hospitalar Conceição (GHC) ocorreu em 1975, ainda como secretária, após formação técnica em secretariado. Já naquele momento, sua presença negra em um hospital majoritariamente branco era um ato político. Como ela mesma relata, o processo seletivo era velado, mas racista: a preferência recaía sobre mulheres brancas, loiras, de olhos claros. Geneci quebrou esse padrão. E não apenas entrou, permaneceu.

Em 1981, formou-se como auxiliar de Enfermagem e foi a primeira mulher negra a ocupar um posto na Enfermagem dentro do GHC. Mesmo após a contratação, os caminhos lhe foram barrados. Alocada em setores de pouca visibilidade, como o bloco cirúrgico e o centro de materiais, Geneci entendeu que o racismo institucional não se desfez com sua entrada. Mas ela não recuou. Enxergou na Enfermagem mais que um ofício: viu ali um propósito dentro de algo que amava fazer. Assistia cirurgias com fascínio, participava dos bastidores da recuperação de vidas. Era na vibração das salas cirúrgicas que o desejo de estar no centro do cuidado nasceu.

Aos poucos, Gê, como é conhecida por amigos e colegas, foi conquistando o coração de todos. Sempre carinhosa, acolhia muitos profissionais com um caloroso abraço. Também graças à sua dedicação e ao seu amor pela Enfermagem, foi avançando e derrubando barreiras raciais e profissionais. Em 2004, dentro da própria Escola GHC, deu crescimento à sua jornada profissional se formando técnica de Enfermagem.

Trabalhou em praticamente todos os setores da instituição de saúde: centro cirúrgico, ginecologia, pneumologia, clínica médica, unidades psiquiátricas. Durante os anos mais duros do Hospital Conceição — quando um único enfermeiro era responsável por todo o turno, e os auxiliares precisavam assumir funções para além de suas atribuições — Geneci esteve ali, presente, conduzindo procedimentos, aplicando sondas, fazendo curativos, salvando vidas. “Era uma loucura. Tínhamos 30 pacientes para cuidar sozinhas. Mas a gente fazia, com dedicação, com amor.”

Sua atuação mais recente foi na psiquiatria, especialmente com adolescentes em sofrimento psíquico, violência doméstica, uso de substâncias e conflitos de identidade. Foi nesse ambiente, tão marcado pela dor e pelo silêncio, que Geneci consolidou sua escuta humanizada, seu acolhimento transformador e seu olhar terapêutico. “Trabalhar ali me ensinou que salvar vidas também é abraçar, conversar, acolher. Tem gente que só precisa ser ouvida.”

Geneci tem profunda atuação política. Participou da fundação da Associação dos Servidores do GHC (ASERGHC) em 1976 e do Sindisaúde-RS na década de 1980, sendo uma das vozes que ergueram a primeira organização sindical em defesa da categoria no Brasil. Ainda no Sindisaúde-RS, foi vice-presidente da entidade entre os anos de 2004 e 2007. No GHC, ingressou na Comissão Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Ceppir-GHC) em 2003. Em 2021, deixou o GHC, mas retornou em 2024. Atualmente aposentada, segue atuando dentro da Ceppir-GHC com sua experiência em escuta humanizada. Ela e toda a equipe já acolheram mais de 1 mil funcionários negros, muitos deles da Enfermagem, que passaram por alguma situação de discriminação. Além disso, trabalha na banca de aferição de cotas raciais e em diversas atividades internas voltadas à equidade. “Cota não é privilégio, é reparação. E reparação é justiça.”

Suas experiências cotidianas de racismo, como em um caso em que foi impedida de entrar no quarto de uma paciente porque ela não queria ser cuidada por uma profissional negra, não a fizeram desistir da Enfermagem. Pelo contrário: fizeram-na compreender que o amor pelo cuidado também pode ser uma prática revolucionária. “Eu jurei exercer minha profissão com amor, e é isso que me move até hoje. Amor cura. Amor constrói.”

Geneci vê a Enfermagem como um espaço coletivo. Recusa a lógica hierárquica que isola enfermeiros, técnicos e auxiliares. Defende uma atuação integrada, baseada na confiança e na valorização mútua. “É equipe. Sempre foi. A gente precisa estar junto, especialmente nas horas mais difíceis. Uma parada cardíaca só termina bem se houver união.”

É também mãe de duas mulheres, Laís, pedagoga, e Taís, técnica de Enfermagem no próprio GHC e estudante de Enfermagem, que segue os passos da mãe, multiplicando a dedicação, a competência e o amor pelo ofício.

Indicar Maria Geneci Macedo Silveira ao Prêmio Anna Nery é reafirmar que a Enfermagem brasileira tem raízes negras, populares e femininas. É valorizar uma trajetória construída com sacrifício, amor e convicção política. É dar nome e rosto à história daquelas que cuidaram de gerações inteiras, mesmo sem reconhecimento formal. É reconhecer que Geneci representa o que há de mais íntegro e potente na Enfermagem: o compromisso com a vida.

Sua história nos lembra que lutar é cuidar. E cuidar, quando feito com consciência e coragem, também é um ato político. Geneci segue sendo farol para quem veio antes, para quem chegou depois e para quem ainda virá.

Fonte: Setor de Comunicação e Eventos - Coren-RS

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